A guerra pela audiência na Copa: números frios ou o novo comportamento humano?

20/07/26 às 00h
Atualizado em 21/07/26 às 05h33
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Por Teco Barbero

Chegamos ao fim da maior Copa do Mundo já realizada na história. Com 48 seleções em campo durante 39 dias, o torneio não apenas transformou o futebol, mas chacoalhou as estruturas da comunicação mundial. No Brasil, o público viveu uma dinâmica inédita com as detentoras dos direitos de transmissão: a Rede Globo e o SBT dividindo a TV aberta, a CazéTV comandando o streaming de forma massiva no YouTube e, correndo em paralelo no ambiente digital, o canal N Sports (exibindo o torneio no YouTube em uma parceria estratégica com o SBT para expandir o alcance da emissora na internet). Foram semanas de uma disputa feroz pela preferência do público, mas a grande decisão de ontem nos força a fazer uma pergunta incômoda: até que ponto a audiência está sendo medida corretamente?
?Se olharmos apenas para os números da final entre Espanha e Argentina, a TV aberta provou que ainda carrega uma relevância gigantesca quando o assunto é o imediatismo do evento ao vivo. Segundo dados preliminares da Kantar Ibope Media (dados não consolidados), a Globo liderou na Grande São Paulo com média de 27 pontos, enquanto o SBT, impulsionado pela despedida histórica de Galvão Bueno das Copas, garantiu a vice-liderança com 7 pontos. Juntas, as duas redes tradicionais mostraram a força da televisão linear. Por outro lado, a internet reafirmou sua escalada: a CazéTV alcançou a impressionante marca de 24,2 milhões de dispositivos conectados simultaneamente durante a semifinal entre Espanha e França (dados preliminares do YouTube) — quebrando mais um recorde mundial e consolidando-se como a maior live da história da plataforma —, enquanto a transmissão conjunta via YouTube pelo ecossistema do SBT e do N Sports conseguiu capilarizar ainda mais essa audiência digital, atraindo um público majoritariamente jovem que já cresceu conectado ao streaming.
?Para compreender o sucesso da CazéTV, contudo, é preciso destacar que ela foi o único meio, entre todos os exibidores, que transmitiu 100% dos jogos da Copa do Mundo. Essa estratégia garantiu ao canal diversos momentos de exclusividade absoluta na transmissão de partidas importantes, o que naturalmente inflou seus picos de audiência. Nos momentos em que os jogos deixavam de ser exclusivos e passavam a ser divididos com a TV aberta, a pulverização do público era imediata.

?Essa dinâmica deixa uma lição clara: quanto mais opções de transmissão oferecemos, mais a audiência se divide. Por essa razão, perde completamente o sentido técnico e jornalístico comparar os índices de hoje com as audiências históricas do passado. Na minha opinião, as transformações tecnológicas e a pulverização de telas mudaram o mercado para sempre. Nunca mais veremos uma única emissora, incluindo a própria Rede Globo, registrar os números astronômicos de outrora, simplesmente porque o monopólio da atenção foi quebrado.
?É preciso destacar, contudo, que a medição tradicional do SBT acaba sendo severamente prejudicada por essa própria dinâmica de parceria. O sistema atual do Ibope depende essencialmente da captação e do reconhecimento do áudio linear da TV para registrar a audiência. Quando o conteúdo é distribuído em múltiplas plataformas com pequenas variações na transmissão, ou quando há dificuldades técnicas na captação do som ambiente e na identificação do áudio digital pelos aparelhos de medição, o sistema não consegue cruzar os dados corretamente. Essa defasagem tecnológica faz com que uma parcela significativa de pessoas que estavam ligadas no SBT e no N Sports simplesmente suma dos relatórios oficiais, gerando uma contagem que não reflete a realidade do alcance da emissora.
?No entanto, basear o sucesso de uma transmissão apenas no placar do Ibope ou no contador de views é ignorar a complexidade do comportamento humano atual. Os dados analíticos são úteis, mas eles não conseguem ler as nuances da nossa rotina.
?Já parou para pensar, por exemplo, em quantas pessoas assistiram à final com o celular ou o tablet na mão, interagindo no chat do streaming ou nas redes sociais, enquanto a televisão da sala permanecia ligada, sintonizada na TV aberta? Esse fenômeno das "múltiplas telas" gera uma sobreposição que os métodos tradicionais de aferição mal conseguem tatear. Nós nos fragmentamos. Um indivíduo hoje consome o mesmo jogo de três formas diferentes ao mesmo tempo: ouve a narração da TV, checa a estatística no aplicativo e assiste aos memes na internet. Nenhum algoritmo consegue decifrar essa subjetividade, simplesmente porque cada um de nós se comporta de uma maneira única.
?O que estamos testemunhando é uma profunda mudança de cultura na forma de consumir entretenimento. A ascensão definitiva do streaming nesta Copa, combinada com a chegada da TV 3.0 — que promete integrar de vez a TV aberta à internet —, vai redesenhar completamente nossa experiência. Deixaremos de ser espectadores passivos de uma grade horária para nos tornarmos curadores do nosso próprio conteúdo. Teremos a liberdade de escolher câmeras exclusivas, áudios personalizados e conteúdos sob demanda.
?Contudo, é preciso colocar os pés no chão: essa revolução não vai acontecer da noite para o dia. Embora o novo sistema tecnológico da TV 3.0 já comece a dar seus primeiros passos operacionais nas principais capitais, especialistas do setor de telecomunicações preveem que uma difusão real e em larga escala — alcançando a grande maioria das casas brasileiras — só deve se consolidar por volta de 2031 a 2035. Esse horizonte distante se deve à necessidade de substituição de aparelhos de TV antigos por modelos compatíveis e à expansão de infraestrutura de internet de alta velocidade, algo ainda muito distante da realidade socioeconômica de boa parte do país.
?Mais do que uma disputa por números entre Globo, SBT e internet, a Copa do Mundo deixa claro que a verdadeira batalha não é para ver quem tem o maior índice, mas quem consegue entender melhor o ritmo dessa transição. No fim das contas, a audiência do futuro não será medida pelo canal que escolhemos sintonizar hoje, mas pela forma como escolheremos viver a experiência amanhã.

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